Descoberto o mais antigo texto escrito em galego-português

Na segunda metade do século XII, em pleno reinado de D. Afonso Henriques, dois irmãos, Gomes Pais e Ramiro Pais, presumíveis fidalgos da região de Braga, assinaram entre eles um pacto de não agressão. Não seria nada de estranho, na época, entre parentes com propriedades contíguas, mas o documento que formaliza este acordo, conservado na Torre do Tombo, em Lisboa, apresenta uma característica invulgar: não está redigido em latim. José António Souto, professor de História da Língua na Universidade de Santiago de Compostela, acredita que se trata do mais antigo documento escrito em galego-português até hoje identificado.

O investigador galego, que ontem apresentou a sua descoberta na Universidade do Minho, em Braga, durante uma Jornada de Edição de Textos Medievais, não foi o primeiro a dar notícia da existência deste pergaminho. Mas ninguém até agora atendera à sua peculiar configuração linguística. E se se aceitar o conjunto de deduções que levou Souto a fazer remontar o documento, que não está datado, a um ano anterior a 1175, parece não haver dúvida de que este trivial protocolo de família tem direito a ostentar o título que o professor de Compostela lhe pretende conferir.

Uma professora da Universidade Clássica de Lisboa, Ana Maria Martins, já publicara vários textos da segunda metade do século XII alegadamente redigidos em galego-português. Mas o mais antigo dataria justamente de 1175 e há quem defenda que, dada a sua reduzida dimensão, é impossível demonstrar que não está escrito em latim.

Souto utiliza, de resto, com alguma relutância a designação de galego-português, argumentando que se o termo tem a vantagem de deixar claro que as actuais regiões de Portugal e da Galiza utilizavam um só idioma, pode também sugerir, erradamente, que se trata de uma língua que não é exactamente o português. Um escrúpulo revelador da sua costela “lusista”, que na Galiza designa não apenas os que se interessam pela cultura portuguesa, mas, mais especificamente, os que contestam a norma oficial do galego, contaminada de castelhano, e defendem que esta devia aproximar-se do português actual.

FONTE: Público.pt

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